domingo, 14 de setembro de 2008

VAMOS MOSTRAR A CARA!

27/2/2008 - Prostitutas querem mostrar a cara
Ullisses Campbell
Da equipe do Correio


Associações de prostitutas de todo o país vão começar ainda neste mês uma campanha incentivando que elas assumam a identidade profissional para os agentes do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), que começarão, no ano que vem, a coletar os dados do Censo 2010. A primeira organização não-governamental (ONG) a lançar a campanha será a Da Vida, presidida por Gabriela Leite. Ela reclama que as profissionais do sexo têm vergonha de marcar no questionário do IBGE que sustentam a família com programas.

Ao pesquisar em 2000 a ocupação do brasileiro, o IBGE constatou que apenas 5.304 pessoas ganham o pão fazendo sexo, sendo 83% mulheres e 17% homens. Desse total, 4,6 mil atuavam na zona urbana e 654 na zona rural. "Claro que esses números estão errados. A prostituta brasileira ainda tem vergonha da profissão e muito medo do preconceito da sociedade", conta Lourdes Barreto, do Grupo de Mulheres Prostitutas do Pará (Gempac).

Gabriela Leite disse que a campanha é fundamental para o governo descobrir quantas prostitutas estão em atividades no país. Ela sugeriu que a campanha seja semelhante à feita em 2000 por movimentos negros, intitulada Mostre a sua cor. "A nossa campanha no Rio de Janeiro se chamará Mostre a sua cara. Terá camisetas e adesivos", conta Gabriela.

Durante a primeira consulta nacional sobre doenças sexualmente transmissíveis e AIDS, direitos humanos e prostituição, realizada ontem em Brasília, a questão sobre identidade profissional foi amplamente discutida pelas profissionais do sexo presentes. "Assumir a profissão é fundamental para os programas de prevenção e controle social", argumentou Neila Barreto, militante do Genpac.

Simone Souza, 35 anos, faz programas há 8 na cidade de Ribeirão Preto (SP). Mãe de três filhos adolescentes, ela conta que decidiu ser prostituta depois que o marido a abandonou. "Eu não tenho vergonha da minha profissão. Cobro R$ 50 pelo programa e todo o dinheiro que ganho é honesto. Meus filhos sabem de tudo. Tem noite que volto para casa com R$ 600 na bolsa", conta orgulhosa.

A baiana Marilene Silva, 36 anos, se prostitui desde os 14 anos. Tem dois filhos adultos e até hoje faz programas em bares e boates de Salvador. "Meu programa custa R$ 50. Tenho clientes fixos que me ligam diariamente. É bem mais seguro e rentável", garante. Ela preside a Associação de Prostitutas da Bahia (Aprosba) e conta que vai mergulhar de cabeça na campanha para fazer com que as colegas assumam a profissão para os agentes do IBGE. "O meu sonho é ver essa profissão legalizada. Assim, as Delegacias Regionais do Trabalho (DRTs) poderão fiscalizar os bordéis, as casas de show e as boates onde as mulheres fazem programa. Uma prostituta também poderá processar um cafetão que ouse explorá-la", opina Gabriela Leite.

2 comentários:

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